O FUTURO DA CONSTRUÇÃO

Interatividade é uma característica esperada para os edifícios no futuro próximo. Prédios capacitados por sensores e geridos por softwares poderão autorregular a temperatura interna, umidade e luminosidade, entre outros.

Bem como reaproveitar integralmente a água e a energia consumidos. A interatividade, então, servirá à autossuficiência das edificações contra a progressiva escassez de recursos naturais decorrente da intensificação das densidades urbanas mundo afora.

“It’s alive” (imagem ao lado), um ensaio elaborado pela Arup Foresight, que se dedica a pesquisas e é vinculada à empresa de engenharia, design, consultoria e planejamento Arup, de origem britânica mas atuante também no Brasil, representa artisticamente o possível cenário em 2050 dos chamados prédios inteligentes. É, assim, formado por ilustrações sobre componentes futurísticos das edificações.

Nesse caminho, estão em curso pesquisas de materiais aplicados à construção civil, inovadores porque promovem a interação do edifício com o meio ambiente. Alguns são de origem corriqueira, como a argila. Associada ao hidrogel – que tem altíssima capacidade de absorção de água -, ela é a matéria-prima da hidrocerâmica, superfície para revestimento que está sendo desenvolvida pelo Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha, na Espanha. O princípio é o do resfriamento dos interiores por causa da evaporação da água contida na hidrocerâmica, por sua vez resultante do aumento da temperatura exterior.

Também o desenvolvimento de sensores e softwares é protagonista de pesquisas sobre o futuro da construção civil, sobretudo quando o objetivo é facilitar a implantação de obras complexas e localizadas em regiões muito adensadas. É o caso da estação intermodal de transportes Transbay Transit Center (projeto de Pelli Architects, Adamson Associates, Peter Walker Partners), que está sendo construída em São Francisco, nos Estados Unidos. O alto volume de escavação (480 mil metros cúbicos, seis pisos), somado à elevada densidade construtiva do entorno, fez com que a equipe da Arup criasse um software para monitorar sensores que captam, entre outros elementos, as movimentações de terra na área de influência da obra.

Tem-se, assim, o acompanhamento em tempo real do subsolo, alimentado por informações georreferenciadas. Mas além da sustentabilidade – diversificar os materiais, investindo na industrialização da madeira, do bambu e até do papelão, em que importam a criação de conexões de todo tipo e a obtenção de peças maiores, de modo a agilizar a construção – e da segurança, também a leveza, com a consequente economia de material, será o próximo passo da indústria da construção. Um composto de aço carbono pré-protendido é o protagonista do MPavilion, em Melbourne, Austrália, constituído por conjunto de pilares de aço e coberturas em forma de pétala (com cinco metros de largura e apenas três milímetros de espessura). Assinam o pavilhão a arquiteta Amanda Levete e a empresa mouldCAM, atuante no setor náutico.

AVANÇOS RECENTES QUALIFICAM A CONSTRUÇÃO BRASILEIRA
Nestes últimos anos de atividade intensa, resultante do boom na indústria nacional da construção, inovou-se muito em materiais e sistemas construtivos. São criações que, agora disponíveis no mercado, facilitam a industrialização e a pré‑fabricação de soluções e, assim, diminuem a costumeira improvisação nos canteiros de obras do país. A importação teve papel decisivo nesse processo. O Brasil recebeu novos produtos dos países europeus (sobretudo Espanha, Itália e Portugal) interessados no enorme mercado. Em todas as etapas do projeto, então, foram incorporadas melhorias, como as abordadas a seguir.

FUNDAÇÕES
Houve o lançamento de equipamentos e maquinário, provocando o incremento no número de empresas especializadas que dispõem de bom acervo técnico. O que vale sobretudo para as estacas do tipo raiz e perfis metálicos que, sendo mais leves, agilizam a implantação, otimizam a segurança da obra e se adaptam inclusive ao retrofit de edifícios. Nesse mesmo sentido, hoje possuímos muito mais conhecimento em instrumentação e monitoramento das fundações. Instalado um sistema informático nas estacas e paredes‑diafragma, temos a informação efetiva do que ocorre em tempo real nos subsolos, de modo a evitar acidentes (muitas vezes desastrosos) tanto nas obras quanto nas edificações vizinhas. Se antes construíamos com cautela, superdimensionando muitas vezes por desconhecer as resistências do solo e por ter pouca informação sobre o entorno, hoje podemos monitorar diariamente o comportamento efetivo dessa importante e desconhecida etapa dos nossos projetos. É o que está ocorrendo na obra da futura sede paulistana do Instituto Moreira Salles (IMS), projeto dos arquitetos do escritório Andrade Morettin, que tem interface sensível com os túneis da rede metroviária.

SUPERESTRUTURA
Protagonista na geração da forma das edificações, a superestrutura passou recentemente por grandes avanços e pelo benefício da maior oferta de novos materiais. Por exemplo, a disponibilidade de aço com perfis mais robustos e também sistemas feitos com madeira colada. Não que se deva abandonar o concreto, que tanto representou e representa a melhor arquitetura brasileira. Esse tipo de estrutura continua presente nos melhores projetos, onde sempre se almeja implantar peças monolíticas paginadas/ripadas com a máxima uniformidade, em um processo, portanto, dependente da qualidade do sistema de fôrmas (hoje já trabalhamos com o apoio de fábricas de fôrmas, como a Peri, e com concretos de alta performance – FCK 50 – que têm resistência 100% maior do que o material disponível há dez anos), da capacidade técnica do executor e do zelo da mão de obra.

Também está desaparecendo o clássico ferreiro da obra, substituído por profissional montador que gera ganho substancial de velocidade da construção. No canteiro do IMS, por exemplo, todas as armaduras são recebidas cortadas, dobradas e etiquetadas da fábrica Gerdau Armafer, alguns dias depois de enviado o projeto vetorial fornecido pelo calculista. Entre outras vantagens, isso tem o grande mérito de eliminar todo o tipo de sobras, de sucatas na obra. E com a maior disponibilidade de galvanizadoras para peças de grande porte, foi possível inclusive galvanizar as armaduras após a etapa corte/dobra, um processo que incrementa a durabilidade e a qualidade do concreto, evitando a corrosão acelerada pela poluição e as futuras – e caríssimas – restaurações. Evita-se também qualquer tipo de manchamento precoce durante a concretagem de uma parede com sistema trepante, por exemplo, como a realizada na obra do Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre, projeto de Álvaro Siza.

Já as estruturas de aço evoluíram muito após a entrada no mercado brasileiro de perfis laminados com dimensões de até quase 70 centímetros de altura, que permitem atingir grandes vãos utilizando peças com a metade das dimensões costumeiras do concreto. Paralelamente, houve um avanço na capacidade de suporte do aço através do enriquecimento das ligas com nióbio, que leva à adoção de perfis ainda mais esbeltos e, assim, facilita a compatibilização da estrutura com as demandas cada vez maiores de instalações. Esse fato, conjugado ao incremento da disponibilidade no Brasil de guindastes de até 750 toneladas de capacidade, possibilita ousar em peso e altura, desenvolvendo soluções projetuais antes impensadas. Nesse caso, também a obra do IMS serve de exemplo.

Quanto às estruturas de madeira, sobretudo laminada (na qual se costuma utilizar um tipo especial de pinus), esse sistema está se tornando presente em vários projetos no país, seja de estruturas convencionais, em arco ou mesmo de peças muito delgadas utilizadas em brises. A fábrica de madeira Ita, do renomado engenheiro Hélio Olga, é uma das protagonistas nessa área, desempenhando papel fundamental no desenvolvimento de estruturas e sistemas com esse material para os principais projetos. Em conjunto, tais avanços setoriais flexibilizam o projeto do arquiteto, que pode se apropriar do comportamento ideal de cada sistema e material, seja a madeira, o aço ou o concreto, para viabilizar técnica e plasticamente a sua criação.

ISOLAMENTOS
Até há pouco tempo, o desempenho acústico das edificações só entrava em cena quando se necessitava mitigar desconfortos dos clientes. Hoje em dia, contudo, consultores fazem parte do time de projetos e cumprem o papel de enriquecer o detalhamento arquitetônico com soluções acústicas e térmicas. Aplicam-se mantas de isolamento acústico nas divisórias, nos pisos, nas tubulações hidráulicas e, paralelamente, procura-se economizar energia através da melhoria da inércia térmica dos volumes construídos através da inserção de paredes externas duplas isoladas, de vidros laminados especiais (com películas acústicas), vidros insulados e também com o isolamento térmico sobre impermeabilizações das coberturas. São detalhes construtivos que otimizam o conforto termoacústico das nossas construções, de modo muito diferente do que obtínhamos até o final do século 20.

INSTALAÇÕES
Também no que diz respeito às instalações, houve grande aporte de novos equipamentos, como elevadores, sistemas hidráulicos e de ar condicionado, iluminação e automatização. As grandes empresas de elevadores introduziram no mercado modelos desprovidos de casas de máquinas, alimentados por motores elétricos supereconômicos, inclusive com a regeneração de energia através da recuperação do que é gasto pelo sistema de freios. Em climatização, bombas inteligentes estão sendo aplicadas nos sistemas hidráulicos de reúso e ar condicionado, gerando economia de energia, confiabilidade e diminuição do ruído, assim como se almeja o melhor desempenho das instalações, aspectos em que destacaria os chillers com regeneração de energia, os equipamentos VRVs e os dutos de ar climaver, com isolamento acústico interno.

Na iluminação, estamos atualmente passando por grande revolução tecnológica, migrando da iluminação convencional (incandescentes/fluorescentes) para o led, qualificado pelo baixíssimo consumo de energia, bem como pelo incremento de cinco a sete vezes do tempo de substituição das lâmpadas. Finalmente, há que se destacar o aporte no Brasil dos sistemas de automação (BMS – Building Management Systems), antes limitados a grandes edificações, mas agora utilizados até nos projetos de residências (Homesystems). Eles permitem que os usuários comandem luzes com cenários, cortinas, ares-condicionados, sonorização, piscina e irrigação do jardim remotamente.

Todos esses avanços tecnológicos trouxeram economia e maior conforto aos usuários. Entretanto, não podemos esquecer que a coordenação do desenvolvimento dos projetos se tornou muito maior e mais complexa, sobretudo no que se refere à compatibilização de todos esses sistemas. Compatibilizar é fundamental para podermos evitar interferências e garantir a beleza dos espaços, assim como estarmos atento às dificuldades do projeto e, então, vislumbrarmos oportunidades de vencê-las e inovarmos, com a solução que seja a mais bonita.

Dedicarmos ao desenvolvimento muito tempo é vital para podermos investigar soluções novas. Só experimentando efetivamente e ouvindo os que estão envolvidos no processo de projeto/construção é que podemos atingir ótimo resultado, muitas vezes além do inicialmente lançado no 3D do estudo preliminar.